Ainda não conheço uma criança que não goste de bolo de
chocolate. A maciez da massa coberta pela calda negra é uma combinação quase
irresistível. E foi nesse manjar que o menino passou a tarde daquele domingo
ensolarado de junho pensando. Fazia planos de saborear aquela guloseima, pedaço
por pedaço, com o primo, mas só depois do ‘baba’. Mas aquele bolo nunca seria
tocado. A amargura da morte se sobreporia à doçura do chocolate.
A notícia chegou de forma inesperada. O dia tinha sido tranqüilo.
Era mais um domingo para o menino brincar com o primo que, religiosamente, o
visitava aos finais de semana. O que eles fizeram pela manhã, eu não me lembro
– acho que as recordações das horas que antecederam a desagradável surpresa
marcaram mais do que quaisquer outras memórias daquele dia. Já à tarde, foram à
casa de um amigo, mas demoraram pouco. Resolveram conversar. E conversaram,
conversaram muito e nem mesmo as discussões comuns entre meninos naquela idade
– 10 e 12 anos – surgiram.
Naquele dia eles pareciam sentir que precisariam um do outro
para muito mais do que só ludibriar as mães para poderem ir tomar banho de rio.
Dessa vez a tentativa seria de auto-engano. E foi assim quando receberam a notícia.
Entreolharam-se e não acreditaram no que ouviram. Correram para casa,
precisavam se certificar daquilo. Aquele percurso de 500 metros entre o campo
de futebol e a casa, foi multiplicado pelo peso da notícia. Uma overdose de
sentimentos e pensamentos permeou a cabeça do menino e do primo. Não podia ser
verdade.
Era verdade. O herói tinha chegado ao fim da saga. O avô dos
meninos estava morto, vítima de um infarto fulminante. E aquele domingo que
tinha começado com a doce vontade de um bolo de chocolate, terminava na
amargura da perda. Esse choque provocou profundas mudanças no menino e no
primo. Eles agora alimentavam uma admiração mútua que nunca existira. Cinco
dias depois, quando a agonia da morte deixava espaço para a lembrança da
presença, era hora de jogar o bolo fora. Um gesto simples, mas que representava
uma transformação sem precedentes na vida dos garotos: a vida perdera um pouco
do sabor doce da infância.
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