segunda-feira, 30 de abril de 2012

O bolo de chocolate


Ainda não conheço uma criança que não goste de bolo de chocolate. A maciez da massa coberta pela calda negra é uma combinação quase irresistível. E foi nesse manjar que o menino passou a tarde daquele domingo ensolarado de junho pensando. Fazia planos de saborear aquela guloseima, pedaço por pedaço, com o primo, mas só depois do ‘baba’. Mas aquele bolo nunca seria tocado. A amargura da morte se sobreporia à doçura do chocolate.

A notícia chegou de forma inesperada. O dia tinha sido tranqüilo. Era mais um domingo para o menino brincar com o primo que, religiosamente, o visitava aos finais de semana. O que eles fizeram pela manhã, eu não me lembro – acho que as recordações das horas que antecederam a desagradável surpresa marcaram mais do que quaisquer outras memórias daquele dia. Já à tarde, foram à casa de um amigo, mas demoraram pouco. Resolveram conversar. E conversaram, conversaram muito e nem mesmo as discussões comuns entre meninos naquela idade – 10 e 12 anos – surgiram.

Naquele dia eles pareciam sentir que precisariam um do outro para muito mais do que só ludibriar as mães para poderem ir tomar banho de rio. Dessa vez a tentativa seria de auto-engano. E foi assim quando receberam a notícia. Entreolharam-se e não acreditaram no que ouviram. Correram para casa, precisavam se certificar daquilo. Aquele percurso de 500 metros entre o campo de futebol e a casa, foi multiplicado pelo peso da notícia. Uma overdose de sentimentos e pensamentos permeou a cabeça do menino e do primo. Não podia ser verdade.

Era verdade. O herói tinha chegado ao fim da saga. O avô dos meninos estava morto, vítima de um infarto fulminante. E aquele domingo que tinha começado com a doce vontade de um bolo de chocolate, terminava na amargura da perda. Esse choque provocou profundas mudanças no menino e no primo. Eles agora alimentavam uma admiração mútua que nunca existira. Cinco dias depois, quando a agonia da morte deixava espaço para a lembrança da presença, era hora de jogar o bolo fora. Um gesto simples, mas que representava uma transformação sem precedentes na vida dos garotos: a vida perdera um pouco do sabor doce da infância.

sábado, 7 de abril de 2012

Outro dia, eu conversava com uma colega de faculdade e ela me dizia algo que já ouvi inúmeras vezes: tudo no começo são flores. Quantas vezes você não já ouviu isso? Se nenhuma, você nunca esteve apaixonado (haha).

É incrível como sempre encontramos pessoas que insistem em querer nos desestimular quando estamos nessa condição que beira a insanidade. Sim, insanidade, porque loucura sem paixão pode até existir, mas o contrário é impensável. “Não acredite no que eles dizem. Perceba o medo de amar”, canta Vanessa da Mata em uma das letras mais singelas e simples da música brasileira. É por aí! Não acredite.

No começo tudo são flores mesmo. As borboletas pululam nos estômagos quando cogitamos a possibilidade de ver a outra pessoa, as conversas se multiplicam de forma irracional (assuntos não faltam) e se dão de todas as formas: pessoalmente, pela internet, por telefone e até por SMS. Ah, SMS’s que causam furor e provocam ansiedade quando não vêm. Fico agora a imaginar como eram os relacionamentos dependentes dos serviços de correio. Mágicos!

Mas, voltando à constatação da minha colega, se sabemos que no início tudo é lindo, por que não aproveitamos ao máximo esse momento? Por que não vivermos isso com intensidade e sem projeções? Amanhã a magia diminui, ou acaba, e nós podemos ficar com a sensação de que poderíamos ter feito mais, ter vivido mais. “Que seja eterno enquanto dure”, disse o poeta; e se ele me permite acrescento: “que seja bom, enquanto for eterno”.

Quanto tempo vai durar? Como saber?! As explicações para o presente não estão no hoje. Ou estiveram no ontem ou só se farão no amanhã. Às vezes dura pouco, às vezes muito. Cabe-nos aproveitar enquanto exista, enquanto for bom. Ah, e bom nada tem a ver com alegria constante. Parece ladainha de padre casamenteiro, mas a tristeza faz tão bem a um relacionamento quanto a alegria. É na agonia que se perceberá a capacidade de um cuidar do outro. Ninguém tem obrigação de aguentar outra pessoa em infortúnio, no entanto, quando há sentimento, essa não é uma obrigação e sim uma necessidade.