Você me olhava. Você
achava que eu não percebia, mas você me olhava sempre e eu sempre me rendia a
surpresa de ter uma espécie de Creusa (personagem de Juliana Paes em América)
fazendo charme pra mim. Toda recatada, mas eu sabia que, no seu mais íntimo,
você era a personificação do desejo carnal que todos temos. A farsa montada por
suas saias compridas e blusas discretas era desfeita toda vez que você, com
medo de ser percebida, fingia olhar para o horizonte, quando na verdade fitava
meus olhos.
Eu era seduzido não por
suas curvas ou pelos longos cabelos negros que serviam de moldura para belo
rosto feminino e moreno, e sim por estar sendo descaradamente aliciado por
alguém acima de qualquer suspeita. Nunca retribui seus olhares, mas sempre
fiquei intrigado com o porquê disso. Não, eu não sou do tipo que atende aos
padrões estéticos tampouco seguia as diretrizes da sua religião, mas mesmo
assim você insistia em me perseguir com os olhos de uma forma tão convidativa
que só resisti porque, realmente, não sou do tipo femeeiro.
Pois bem, você sumiu de
minha rotina e eu vagamente lembrava de você. Agora você resolve reaparecer
casada com ele, um dos caras mais bacanas que eu conheço, e pior, vem ser minha
vizinha. Eu até tento esquecer, mas não me sai da cabeça o fato que você era
noiva dele e me olhava daquele jeito. O que me resta? Ignorar-lhe, dar-lhe a
atenção que a sua insignificância, para mim, exige. Não sou um paladino da
moral e dos bons costumes, mas não admito enganações, mentiras. Ainda mais
assim em dose dupla, afinal você enganou a ele e enganou a si mesma acreditando
que podia conter seus desejos com anáguas e decotes pouco convidativos.