sexta-feira, 24 de agosto de 2012


Você me olhava. Você achava que eu não percebia, mas você me olhava sempre e eu sempre me rendia a surpresa de ter uma espécie de Creusa (personagem de Juliana Paes em América) fazendo charme pra mim. Toda recatada, mas eu sabia que, no seu mais íntimo, você era a personificação do desejo carnal que todos temos. A farsa montada por suas saias compridas e blusas discretas era desfeita toda vez que você, com medo de ser percebida, fingia olhar para o horizonte, quando na verdade fitava meus olhos.
Eu era seduzido não por suas curvas ou pelos longos cabelos negros que serviam de moldura para belo rosto feminino e moreno, e sim por estar sendo descaradamente aliciado por alguém acima de qualquer suspeita. Nunca retribui seus olhares, mas sempre fiquei intrigado com o porquê disso. Não, eu não sou do tipo que atende aos padrões estéticos tampouco seguia as diretrizes da sua religião, mas mesmo assim você insistia em me perseguir com os olhos de uma forma tão convidativa que só resisti porque, realmente, não sou do tipo femeeiro.
Pois bem, você sumiu de minha rotina e eu vagamente lembrava de você. Agora você resolve reaparecer casada com ele, um dos caras mais bacanas que eu conheço, e pior, vem ser minha vizinha. Eu até tento esquecer, mas não me sai da cabeça o fato que você era noiva dele e me olhava daquele jeito. O que me resta? Ignorar-lhe, dar-lhe a atenção que a sua insignificância, para mim, exige. Não sou um paladino da moral e dos bons costumes, mas não admito enganações, mentiras. Ainda mais assim em dose dupla, afinal você enganou a ele e enganou a si mesma acreditando que podia conter seus desejos com anáguas e decotes pouco convidativos.

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